
LANÇAMENTO
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PROJETO CINE PRIMAVERA
A descentralização do audiovisual em Mato Grosso através de experiência Primavera do Leste/MT
Escrito por Wanderson Lana

É interessante pensar que, no ano 2000, às vésperas da mudança de século, um grupo de jovens da Escola Estadual Getúlio Dornelles Vargas, de Primavera do Leste, estudantes da 8ª série (hoje 9º ano), decidiu fazer um filme. Coube a mim escrever o roteiro e cuidar da direção do projeto. Sem recursos, acumulei nesse processo também a produção executiva — é importante citar que esses campos de atuação e suas responsabilidades só descobrimos mais de uma década depois. Com quase nenhum apoiador, contratamos um operador de câmera que também atuou como diretor de fotografia, montador, editor e responsável pelo som direto... e surgiu o drama mais engraçado e sem compromisso com o sentido que poderia ter sido feito: Somente os Bons Morrem Jovens, inspirado no livro Eu, Christiane F: 13 anos, drogada e prostituída..., na música Only the Good Die Young, do Iron Maiden, e, claro, na influência das novelas, que construíam em nós a potência do melodrama. Não sabíamos ainda, mas, a partir daquele encontro com o cinema e da nossa percepção de que, na união de um grupo de pessoas, seria possível construir coisas incríveis, a indústria do audiovisual de Primavera do Leste começava a ser alicerçada.
Pode o cinema ser colaborativo? Talvez a pergunta seja outra: até onde o cinema consegue se manter colaborativo? Tentarei responder mais adiante, enquanto faço este exercício de memória.
Depois de Somente os Bons Morrem Jovens, a mesma equipe, em 2003 — já no século XXI — lançou Verdade ou Desafio, um curta-metragem que pretendia ser série, ser filme, ser novela, mas acabou sendo aquilo que foi possível realizar com poucos recursos. Podemos chamá-lo de um pequeno reflexo dos adolescentes daquele território. Novamente, todos colaboraram para que o projeto saísse do campo das ideias e se efetivasse. A obra marcou um posicionamento interessante e uma dessas encruzilhadas em que, após a escolha de um caminho, para nós, artistas sediados fora dos grandes centros ou que não pertencemos a grandes cidades e capitais de nossos estados, torna-se muito mais complexo e tortuoso o retorno. Estávamos no terceiro ano do Ensino Médio, sem curso de cinema ou teatro em nenhuma universidade pública do estado, todos nós pobres ou de classe média baixa, diante de um sonho/profissão que já não parecia tão possível assim. Em 2003 éramos 08 pessoas que tinham certeza de que daria certo a vida abraçada as artes, seja no cinema, seja no teatro. Em 2004 eu me vi sozinho.
E não foi abandono. Todos se agarraram às opções que a vida apresentou: psicologia, enfermagem, direito, trabalhar para ajudar em casa... De alguma maneira, nós nos realizaríamos em qualquer um de nós que desejasse prosseguir. É engraçado pensar, agora, que em algum momento eu quis ser outra coisa, fazer outra coisa, porque ser artista parecia uma condição, e não uma simples escolha. Eu poderia escolher uma infinidade de outras profissões, mas a ausência de uma felicidade completa — mesmo na tranquilidade — me fez permanecer. E meus amigos, que ajudaram a implementar em Primavera do Leste a ideia de um cinema autoral e que decidiram seguir outros caminhos, até hoje apoiam a mim e a todos os outros que foram se juntando a esse projeto e decidiram ficar. Não faço juízo de valor entre quem partiu e quem ficou.
Há, ainda hoje, uma cumplicidade que só a arte é capaz de costurar. Quero homenageá-los. Na verdade, quero dizer: o audiovisual de Mato Grosso começou, em várias regiões, de maneira artesanal — sem recursos, mas com muitas ideias, vontade e senso de pertencimento.
Em 2005 foi fundado o Grupo Teatro Faces, formado por jovens com muita vontade de criar a partir de seu lugar e dos afetos desse território. Era preciso viver a efervescência do teatro e pensar em políticas públicas que garantissem que mais adolescentes pudessem ver as profissões artísticas como possibilidade — situação que os adolescentes de 2003 não tiveram. Tudo o que um membro do grupo aprendia era compartilhado. Quanto mais pessoas soubessem, melhor seria. Não sabíamos quem continuaria acreditando diante de inúmeras situações, muitas vezes vexatórias e humilhantes. Foi criado, dentro da estrutura do Faces, um núcleo de dramaturgia e roteiro: um território seguro de criação e debate sobre obras autorais criadas pelos interessados e que seriam transformadas em curtas-metragens. O primeiro filme com estrutura de produtora, com algum recurso, mas ainda namorando o artesanal, foi Essa Droga de Trânsito, gravado em uma escola, com mais de 60 figurantes e 16 atores envolvidos. Tínhamos diretor de arte, diretor de produção, produção artística e mais algumas funções que já demonstravam a profissionalização buscada pela Faces Filmes. Porém, o mais interessante foi que, mesmo com um orçamento incrivelmente modesto — em que cerca de 50% ficaram com a empresa de aluguel de equipamentos de captação de imagem e som, e boa parte foi destinada à produção dos DVDs — todos os envolvidos receberam cachê.
Além do respeito pelo trabalho, a Faces Filmes queria mostrar a possibilidade de um mercado promissor, com capacidade de movimentar a economia.
Buscando fortalecer a profissionalização e já conhecendo o desejo de Amaury Tangará e Tati Mendes de ajudar a construir e/ou fortalecer mais espaços para o audiovisual em Mato Grosso, celebramos a Oficina Terceiro Olhar, que contribuiu para pensarmos a nossa própria escola de cinema (já chego a esse momento). Durante a oficina produzimos o curta O Astronauta e a Bailarina. Tangará emprestou sua experiência em direção, e Tati, sua experiência nos mais variados campos da produção. Nos dividimos em equipes e resolvemos falar do momento delicado que o nosso território estava passando: inúmeros assaltos à mão armada em uma cidade que, há muito tempo, era acostumada com a tranquilidade. De maneira crua, foi apresentado um encontro trágico entre dois desconhecidos que habitam o mesmo território, porém a partir de territorialidades diferentes.
Depois de algumas participações em editais federais para realizadores de curtas-metragens — Curta Afirmativo e Carmen Santos — Rafaela Salomão foi selecionada no edital Carmen Santos. E aqui é importante ressaltar que o subsídio federal e municipal nos encontrou muito antes que o estado nos considerasse. Também é importante destacar essas pequenas violências simbólicas que colocam as produções de cidades do interior no campo da exotização, como se a vanguarda ou um modelo de desenvolvimento audiovisual — e de outros campos das artes — só pudessem acontecer nas capitais ou nos grandes centros. Até hoje há um olhar de desconfiança que já não encontra mais eco.
O interior de Mato Grosso quer fazer o cinema que lhe interessa, a partir das emergências do seu território, do seu modo de criação, construindo a indústria que tenha sentido para as pessoas que são impactadas por ela.
Há, nos editais de audiovisual (estaduais e federais), uma tentativa de manutenção da centralidade dos recursos. A Lei Paulo Gustavo (LPG) mudou essa dinâmica e deixou clara a importância da descentralização para o crescimento do audiovisual. Isso fez surgir outros mercados para uma indústria que, a partir da LPG, começou a se desenvolver em diferentes territórios. As ideias e as pessoas já estavam lá; o recurso é que não chegava. Como falar do cinema brasileiro sem perceber o cinema acontecendo em todo o país? Alguns estados, pressionados por produtoras que sempre acessaram recursos públicos, criaram mecanismos para dificultar o acesso, principalmente nos aportes para longa-metragem, buscando a manutenção de uma estrutura viciada e excludente.
Quando Rafaela entrega O Menino do Quarto — já com mais de 50% da equipe de Primavera do Leste — e alcança grande sucesso em seleções e premiações, a Faces Filmes preparava o caminho para o fortalecimento do cinema em Primavera do Leste. Como? Reitero o que disse anteriormente: tudo o que aprendemos, compartilhamos. E, a partir do compartilhamento do conhecimento, apoiamos as produções e as ideias uns dos outros, impulsionando-as a sair do papel. Tive o privilégio de idealizar as oficinas técnicas continuadas de audiovisual Cinema no Mato e Conexão Satélite 3. Adquirimos equipamentos de cinema e produzimos uma grande quantidade de curtas-metragens. Caminhávamos desde o argumento até o roteiro, a decupagem das diferentes áreas, a captação de áudio e vídeo, a montagem, a edição, a campanha de marketing... e outros processos que aqui não descrevo, mas que são importantes na indústria audiovisual.
A história seguiu, e aqui vem o convite. Nas próximas páginas apresentaremos as principais produções do cinema de Primavera do Leste. Estarão presentes as obras cinematográficas, os projetos de formação e a potência do trabalho colaborativo na "indústria" do audiovisual do interior de Mato Grosso. Esta revista busca construir um registro não de todos os trabalhos, mas de um recorte em que seja possível perceber a diversidade do audiovisual do município e como ele dialoga com o território em que viceja.
As luzes se apagaram, o projetor já anuncia aos ouvidos o filme, e o gosto da pipoca empolga o paladar... Pronto, a Cine Primavera começou. Obrigado por vir junto.
Que continuemos juntos!

CURTA - METRAGENS
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ENTREVISTA
Com o diretor e roteirista Wanderson Lana sobre o longa metragem Ensaio sobre a Verdade.
WEB-SÉRIE: FICA PERTO!

FICA PERTO!
1º TEMPORADA
Web Série | 2022
Sinopse:
Quatro amigos inseparáveis – João, Miguel, Caio e Marina –, decidem ir atrás de vingança: matar o pai de Marina, um agressor sexual. Cientes do perigo, organizam um plano que transforma suas vidas para sempre. Em meio ao desejo de justiça, os quatro amigos ainda precisarão lidar com seus próprios segredos e medos numa tentativa de ficarem juntos. Fica Perto! fala de uma adolescência que não pode voltar atrás, que amadurece abruptamente, que deseja ser feliz apesar das dores profundas que a vida trouxe precocemente. Até onde você iria para ajudar um amigo? Até onde você iria para continuar amigo?
ASSISTA AQUI A PRIMEIRA TEMPORADA:

FICA PERTO!
2º TEMPORADA
Web Série | 2025
Sinopse:
Cinco anos depois dos acontecimentos da primeira temporada, João, Marina, Miguel e Caio ainda carregam marcas do passado e vivem revisitando os desencadeamentos de suas decisões na adolescência. Miguel se tornou inacessível, Caio parece um borrão na vida de todos eles, Marina busca no silêncio uma maneira de se proteger dos abandonos que sofreu. João revolve ir atrás de todos e resolver o que deixaram guardado no passado para seguirem em frente. A segunda temporada de Fica Perto! encerra a delicada trajetória do grupo de amigos do interior de Mato Grosso que abraça a redenção e nos presenteia com a doce potência da vida, só possível quando se tem amigos.
ESTREIA EM BREVE

CLIPES MUSICAIS
The end assim for us

Videoclipe | 2021
ASSISTA O VIDEOCLIPE AQUI:
É logo o verão

Videoclipe | 2025
ASSISTA O VIDEOCLIPE AQUI:
TROVÃO:
na música e no audiovisual
Clique aqui para conferir a entrevista com Mariana Lorenzzon — produtora, tecladista e guitarrista da banda Capitão Trovão.

PROJETOS DE FORMAÇÃO

CONEXÃO CULTURA JOVEM: SATÉLITE 3

PROJETO CINEMA NO MATO

ESCOLA DO FUTURO
Laboratório de Criação
Aulas práticas e teóricas sobre linguagem audiovisual, desde a concepção até a finalização de um produto audiovisual. As atividades foram concentradas em Primavera do Leste-MT, visando envolver ativamente a comunidade local e estabelecer um impacto direto na região.
As equipes de pesquisa e criação baseadas na cidade, facilitam o acesso aos recursos e colaborações locais. Por meio de uma abordagem estruturada, colaborativa e de longo prazo, o "Cine Primavera" busca estabelecer uma presença consistente ao longo do ano, consolidando-se como uma iniciativa significativa para mapear, fomentar e fortalecer a produção audiovisual em Primavera do Leste-MT.



EXPEDIENTE
Revista Cine Primavera – Edição nº 01 – 2026
Primavera do Leste/MT
Direção editorial e diagramação: Ana Dorst
Redação: Ana Dorst, André Francisco, Edilene Rodriguez, Tiago Strassburguer, Wanderson Lana
Entrevistas: André Francisco, Edilene Rodriguez, Tiago Strassburguer
Entrevistados: Kayra Ribas, Mariana Lorenzzon, Rafaela Salomão, Rodsley Gomes, Thairo Meneghetti, Wanderson Lana
Revisão: André Francisco
Fotografia: Alisson Rodrigues, Ana Dorst, Daniel Marim, Fares Rames, Gabriel Leszko, Guilherme Bezerra, Marino Lopes, Rafaela Salomão, Rodsley Gomes
Comunicação: Camila Wandscheer
Design e manutenção do website: Matheus Gomes
Parceiros Culturais: Associação Cultural Teatro Faces, Ponto de Cultura A7 (ACEET), Ponto Faces de Cultura, Secult – Secretaria de Cultura, Lazer e Juventude
Produtoras: Faces Filmes, Seriguela Filmes, Coruja Produções Artísticas, Reversa Filmes, DF Produções
Projeto selecionado pelo edital Cinemotion – Acervo/Publicação, com recursos da Lei Paulo Gustavo.
Órgão realizador: Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso
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Primavera do Leste/MT
Grupo Teatro Faces
Escola Municipal de Teatro - Sistema Faces de Ensino
















