Entrevista

 Tiago: A pauta é audiovisual, e vamos falar especialmente sobre um projeto que está no forno, que é Ensaio sobre a Verdade, do qual o Wanderson assina direção e roteiro. Estou certo? Quais são as suas atribuições no longa?

Wanderson: Isso. Diretor e roteirista, e agora também estou dentro da equipe de montagem.

Tiago: Fez figuração também?

Wanderson: Fiz o irmão do protagonista. Se eu não me cortar do filme, devo aparecer ali por uns 30 segundos (risos).

Tiago: Eu já fiz o irmão de protagonista também numa obra sua! (Risos) A websérie Fica Perto, que agora vem para uma segunda temporada. São muitos assuntos nessa pauta. Podemos falar de série, websérie, longa-metragem. Temos também o Wanderson que dirige curta-metragem, videoclipe, mas sabemos também do diretor de teatro. São vários os Wandersons! O Wanderson do teatro e o Wanderson do audiovisual são o mesmo ou são artistas diferentes?

Wanderson: Eu comecei apaixonado por cinema. Lembro de assistir, na Sessão da Tarde, a dois filmes que me marcaram muito: Conta Comigo e Meu Primeiro Amor. Eram filmes dedicados à infância, mas com uma carga dramática muito grande. Eu, aqui no interior de Mato Grosso, na cidade de Poxoréu, pensando em fazer cinema, sei lá... desde a sexta série. Então o teatro foi um lugar que encontrei para me sentir bem. O teatro me fez continuar na arte.

Fazer cinema no interior é muito complicado, né? Os recursos começaram a chegar agora e já existem forças trabalhando para que eles não cheguem aos interiores, para que se mantenham dentro das estruturas em que sempre se mantiveram. Então acredito que o Wanderson do cinema é o Wanderson mais generoso, porque ele foi contaminado pelas práticas que o teatro tem de muita coletividade e gentileza. O teatro me preparou para ser um diretor de cinema que tem um olhar cuidadoso com a atuação. É o meu olhar que vai definir os enquadramentos e o ritmo da obra, mas entendo que o coração da cena está ali, na atuação.

Tiago: Uma das referências que te levou ao teatro foi o cinema. E hoje evidenciamos uma obra que faz o caminho inverso, já que Ensaio sobre a Verdade é cinema, mas nasceu do teatro. O longa, com o texto originalmente escrito para os palcos, carrega algo de teatral intencionalmente para a tela?

Wanderson: No teatro você precisa prestar atenção no que as pessoas estão dizendo e na maneira como elas dizem. Há uma construção de ideia imagética a partir de como a cena foi pensada para a montagem. No cinema, a gente assume um compromisso maior com a imagem. Então, o que no teatro era apenas dito, no cinema passa a ser mostrado. A fotografia traz uma estética bastante teatralizada, e isso é intencional. O Duflair faz um trabalho incrível nesse aspecto. Conversamos bastante sobre luzes muito pontuais, como se fosse um foco abrindo sobre a pessoa. Então, a teatralidade está muito presente em alguns jogos de interpretação e, inclusive, em algumas saídas para a própria construção da narrativa do filme, mas principalmente na fotografia, pensando na dramaturgia da imagem. Se no cinema estamos lidando com a fotografia como linguagem, no teatro a dramaturgia da imagem também atravessa a cena e, em alguns momentos, se interpõe às escolhas visuais trazidas pelo diretor de fotografia para a obra. Então tem bastante coisa ali, e é superintencional.

Tiago: Quem é de Primavera do Leste, ao assistir ao longa, vai reconhecer muitos rostos que já estamos acostumados a ver nos palcos da cidade há bastante tempo. São muitos nomes com quem você mesmo já trabalhou no teatro e também artistas locais com quem, acredito, você nunca tenha trabalhado. Há também parte do elenco que vem de fora da cidade, não é? Como é lidar com essa reunião?

Wanderson: Ah, isso. Eu tive uma produtora de elenco muito boa, a Jana! Sempre quis trabalhar com ela, e começamos a elencar nomes que poderiam estar conosco. Uma coisa a gente tinha certeza: queríamos no elenco do longa alguém que já tivesse participado do espetáculo. Eu já estava na função de direção e roteiro, o Darci foi para outra personagem, a Edilene assumiu a coordenação de produção do longa, e o Dionathan sempre foi, entre nós quatro, o mais apaixonado pela atuação. Assim, pensamos nele para viver o Inácio.


    E todo o elenco se reuniu, e é muito legal essa alma do teatro! A gente sempre decide coletivamente, então a decisão acaba sendo muito leve, porque é a decisão de todo mundo. Trabalhamos também com Luciano Bortoluzzi, de outro estado, mas é um nome com quem já havíamos trabalhado anteriormente em uma websérie que ainda queremos lançar, chamada Fita Forte.

    E a generosidade e a disciplina dele eram coisas que eu queria para esse filme. Eu queria muito que os atores fossem disciplinados. Tivemos outros nomes, nomes grandes da nossa teledramaturgia e até do cinema, mas, para o Zé Basílio e para o Inácio, eu gostaria muito que fossem atores que eu já conhecesse. E somou-se ao elenco uma pessoa que eu não conhecia, que era a Virginia Cavendish. A energia dela fez com que todos pensássemos: "acho que vai rolar". Porque a Virginia já começou muito empolgada. E foi muito engraçado, porque a gente conversou primeiro com outra atriz, a Dira Paes, que não pôde participar por conflito de agenda. Quando a Virginia falou: "eu topo, vamos conversar", e deu certo, ela chegou aqui e foi um encontro de almas também. A mesma disciplina, a vontade de fazer mais vezes... ela queria sempre repetir, queria fazer mais. O elenco inteiro estava muito entregue. Nós precisávamos da figura que faria o Raimundo. E aí a Jana encontrou o Xum, um não ator, e o longa seria a primeira experiência dele. Ele veio de uma comunidade indígena de Campo Novo do Parecis e chegou também muito empolgado. A Dani Leite, que fez a preparação de elenco, já me dizia: "olha, ele está muito bem, ele quer muito". Conhecemos a Maria, que a princípio faria a tradução de uma das comunidades xavantes. Quando a Maria se juntou ao Xum, ao Dionathan, ao Luciano e à Virginia, a gente tinha ali o núcleo duro da nossa obra muito bem estabelecido, todos com o mesmo DNA: todos querendo muito, muito dispostos e muito disponíveis. Para mim foi uma experiência fabulosa. 

    Tínhamos também, nesse processo, vários outros atores indígenas, vários outros atores não indígenas, e contávamos com várias lideranças que nos ajudavam na tradução. Havia também um consultor para o trabalho com o corpo indígena em cena, nós tínhamos trabalhadores, a nossa segunda assistente de direção, a Emília, que também se propôs a nos orientar sobre como trabalhar da melhor maneira possível para termos um set seguro para todos. Então foi uma obra da qual saímos muito felizes. Todos muito satisfeitos. Espero que continuem satisfeitos depois do resultado (risos), mas, ali na gravação, todo mundo ficou muito feliz.

Tiago: E eu fiquei empolgado quando fui escalado para essa entrevista, pois tenho várias curiosidades legítimas desde a minha visita ao set. Embora o espetáculo esteja em cartaz desde 2017, eu assisti à peça recentemente. Meu primeiro contato foi com a produção do filme, antes mesmo de ver o espetáculo. Então, quando finalmente assisti no teatro, gostei muito do texto, e a minha visão do que eu imaginava que seria o filme Ensaio sobre a Verdade mudou.

No espetáculo, por exemplo — me perdoem o pequeno spoiler — nós não vemos os bois. Essa figura não é mostrada. E, no audiovisual, você se propôs a trazer a imagem do animal. Além disso, presenciei nos bastidores uma estrutura muito maior do que tudo que eu já tinha visto, mesmo dentro de outras produções audiovisuais locais que acompanhei. Quais foram os maiores desafios em fazer um cinema com essa magnitude em uma cidade do interior?

Wanderson: O maior desafio é trazer recursos para cá. Lutamos há muito tempo pela descentralização.

Por mais que a Faces Filmes já tenha um currículo com vários curtas-metragens, webséries, séries e também uma escola de formação em cinema, antes de o Estado pensar em editais para essa modalidade, isso foi um processo muito complexo. E ainda estamos na luta para que esses recursos consigam chegar aos lugares onde o cinema está sendo pensado. Sem contar que, toda vez que o recurso é descentralizado, o olhar exotizador acontece antes mesmo de verem a produção. Além disso, há desafios mercadológicos. Por exemplo, agora é preciso pensar em como será a distribuição desse filme. Mas, na construção da obra, foi um desafio enorme. Só que a gente fez muita coisa antes. Todo mundo se preparou muito bem, fez formação. E eu não tenho problema em que pessoas da minha cidade trabalhem pela primeira vez em alguma ação. Isso é muito engraçado. Pessoas de outros núcleos do audiovisual, de outras cidades, chegaram a dizer: "Contrata uma pessoa mais experiente". E eu falei: "vai dar certo". Quando viram o resultado, disseram: "Nossa, que incrível a direção de arte". Eu falei: "Pois é!". É assim que funciona. As pessoas são boas. Não é porque elas ainda não iniciaram no audiovisual que não têm a qualidade necessária. Talvez até tragam visões novas para o audiovisual. E elas já trabalharam, já trabalharam em curtas, já trabalharam em outras áreas. Elas sabem como funciona. No set, havia cento e vinte e poucas pessoas ao mesmo tempo, numa fazenda. Era gente para um lado, gente para o outro. A equipe trabalhando. Atores, atrizes, técnicos. Equipe para tudo quanto é canto. E todo mundo trabalhando para que eu ficasse tranquilo e pudesse dirigir a cena da maneira como foi pensada.

É uma experiência que muda a maneira de a gente olhar o mundo. Então, para mim foi incrível. Foi surreal. É uma dinâmica diferente. Mas eu me sentia muito pronto para esse processo. Eu estava ansioso, e não nervoso. Eu estava muito ansioso para que tudo desse certo. E para que todas aquelas pessoas que confiavam em mim se sentissem orgulhosas no final do trabalho. E que sentissem que aquilo só estava dando certo por causa do trabalho delas.

Terminamos dentro do prazo, tudo deu certo. Trabalhar com efeitos especiais foi uma experiência... Meu Deus, eu nunca tinha trabalhado. Nunca. Porque imagina: você tem que imaginar o que vai ser depois. Então eu falava: "Meu Deus, o que está acontecendo?"

E quanto a trabalhar com animais em cena, é desafiador. Contamos com um profissional para cuidar do bem-estar dos animais, para que não houvesse nenhum tipo de maus-tratos. A presença do veterinário e do zootecnista nos dava suporte